Isto traz-me memórias tão boas, mas tão boas! Já não comia estes rebuçados há séculos. São os rebuçados da minha infância. Lembram-me o meu avô. Comíamos os dois; os de morango e laranja eram todos pra mim. Deixava sempre os de banana e os de mirtilo.Era uma correria até tirar os dois papéis que embrulhavam estes rebuçados. Hoje, anos depois de ter comido o último, procurei logo um de morango. E a seguir um de laranja. E lembrei-me de todas aquelas tardes em que ele se sentava no sofá, no canto direito sempre, com os comandos da televisão e o rádio, e eu me sentava ao lado dele. Passei tantas tardes assim, com caramelos de fruta, desenhos de barcos a caneta de tinta azul, tentativas de escrever alguma coisa de jeito sem me enganar na máquina de escrever, coleções de miniaturas de carros, coleções de tudo e mais alguma coisa, o Expresso de sábado e domingo. Que saudades.
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sábado, 22 de setembro de 2012
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
segunda-feira, 14 de maio de 2012
MEC, claro
(...)
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. (...)
in Último Volume
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. (...)
in Último Volume
domingo, 13 de maio de 2012
quinta-feira, 10 de maio de 2012
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Detesto esquecer-me de coisas: seja do que tenho para fazer - e é por isso que aponto tudo - seja de frases, momentos, cheiros, sons, gestos... Só que às vezes a minha memória trai-me. E traiu-me com uma voz. Eu simplesmente não me lembro de como ela é. Lembro-me de tudo o que disse, lembro-me de olhares, de cores, de coisas à volta...mas não me lembro da voz. Tenho sons distorcidos a formar uma outra e outra e depois outra...e eu excluo-as sempre porque sei - apesar de não me lembrar - que não é daquela forma.
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Running in circles
Eu guardo tudo. Desde bilhetes de concertos, cinema, teatro, exposições a pulseiras de discoteca, a postais, guardanapos com desenhos passando ainda por coisinhas que me deram, bonequinhos, dedicatórias do secundário (as famosas!), cartas, folhas secas, cartões, conversas em aula, fotos...enfim. 3 caixas não me chegam pra tudo e ao longo do tempo já fui deitando algumas coisas fora - porque já não tinham importância. Entretanto veio a internet e há muita coisa que nos escrevem e que nos dizem todos os dias. E há coisas que se guardam. E hoje foi um daqueles dias de abrir ficheiros. E foi muito estranho voltar a rir-me daquelas coisas. É sempre disto que eu falo quando me perguntam de que é que mais gosto. Ri-me como se nem sequer me lembrasse daquelas palavras. E entretanto apareceram as outras sem eu contar - porque na minha cabeça elas estão em fragmentos dispersos - e, da mesma maneira que me ri, com aquele choque inesperado acabei por chorar. Sem sequer contar. Sem sequer pensar que isso ainda era possível. E no fundo ando a mastigar o tempo sem o digerir. A enrolá-lo, e tentar trapaceá-lo - sem sucesso. No fundo estou a andar aos círculos. Sempre aos círculos. Not fair. Not funny. Ou então a fugir. E isto é zona de conforto. Sempre a adiar a fuga desta trajetória.
"Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã..."
Álvaro de Campos (excerto)
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sexta-feira, 10 de junho de 2011
terça-feira, 7 de junho de 2011
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Do Natal
O Natal do ano passado foi tão diferente deste. Sem comparação. E só serviu para mostrar que há coisas que têm de ser e que mais vale cortar o mal pela raiz do que tratar plantas doentes. E também pra trazer um travo amargo a tanto açúcar metido em bolos. E um bocadinho de sal pra encher os olhos. Não era nada de novo e, mesmo assim, é um Natal feliz...até porque, quando nos atiram das muralhas pra não nos deixarem entrar, há sempre outros castelos.
Feliz Natal a todos (:
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quinta-feira, 10 de junho de 2010
11 de saudade
Correram, assim, na calma do tempo. Não fiz as contas para saber quantos dias são, mas são muitos a sentir a tua falta. Nunca te quis deixar ir, até que inevitavelmente percebi que seria melhor deixar-te descansar e manter-te vivo dentro de mim. As lágrimas de dor por já não te ter aqui há tanto tempo transformam-se num sorriso sereno de lembrança ainda que, de vez em quando, uma dorzinha mais aguda atravesse o coração. Já não me viste chorar pelo primeiro desgosto de amor. Não estavas quando me magoei a sério no joelho. Não estavas quando contei que tinha um namorado, quando chorei dias a fio porque o perdi. Não estavas no primeiro dia em que entrei na faculdade no 1º ano nem no 2º. Não estavas quando um a um todos eles também foram embora, quando chorámos as três entregues a nós próprias e umas às outras, como sempre nos ensinaste. Não estavas quando me desiludi com uma das grande amigas. Não estavas na festa surpresa dos meus quinze anos. Não estavas quando discuti com ele da 1ª nem da 2ª nem da 3ª vez, quando ficámos dois meses sem falar. Não estavas quando cheguei a casa às 4 da manhã da primeira vez que fui a uma discoteca ou quando cheguei às 9h quando sair já se tinha tornado um hábito. Não me viste na primeira vez que trajei nem quando subi ao palco para ir receber aqueles prémios todos dos quais sei que te orgulhas. Engraçado, estiveste sempre lá. Sempre.
Elas dizem e assustam-se com os gestos que faço. Estou a vê-lo agora. Ele fazia esse gesto exactamente assim. É um bocadinho físico de ti que fica em mim.
Os bilhetes nos aniversários religiosamente seguindo o mesmo esquema: um acróstico com o meu nome e as tuas palavras. A colecção infindável de moedas e de porta-chaves. E os isqueiros encontrados na garagem! Foste sempre uma caixinha de surpresas.
Os álbuns de fotografias cheios e rigorosamente ordenados por datas e locais. Os desenhos dos barcos a tinta azul. Não tinhas jeito nenhum para desenhar, mas eu insistia sempre e tu fazias. As férias no Algarve a comer bolas de berlim, as tardes de Inverno a comer Cheetos e batatas fritas. O chocolate branco Galaak e os ursinhos do Tuli-creme. As viagens para o Algarve e a minha implicância com o cheiro a ovos cozidos. Ainda hoje sinto esse cheiro e lembro-me sempre de ti.
Não vais estar cá quando eu me formar, quando eu tiver os meus filhos, quando conseguir o primeiro emprego, quando eu casar, quando eu chegar depois de partir, quando me tornar independente, quando tiver a minha casa. Mas estarás sempre. Sempre. Como estás hoje.
Há tanto de ti em mim, tanto.
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